quinta-feira, 13 de fevereiro de 2014

Fora do trilho: soluções temporárias para transtornos permanentes

Não vim comentar para defender jornalistas, só quero dar minha contribuição de 20 anos de profissão cobrindo, entre tantos outros, acidentes, caos no trânsito e as ditas políticas públicas nesse sentido: Os veículos (de mídia) estão cada vez mais segmentados, o que resulta em visões parciais da já pretensa realidade dos fatos. Há os que simplesmente citam para não deixar de noticiar, há os que garantem audiência graças à desgraça alheia, mas também há os que tentam propor soluções, fazer as devidas cobranças, levantar as estatísticas, mas infelizmente, grosso modo, esses só conseguem traço na audiência. Falo disso porque trabalhei num desses veículos por quase uma década. Outra coisa: reportagens que vão a fundo nesta questão, só são feitas para ganhar prêmio, geralmente se elegendo uma rodovia como palco de mortes ou uma cidade como personagem de um sistema de transporte obsoleto e esgotado. Vocês sabiam que na Europa e Estados Unidos a camada asfáltica das highways tem, por padrão, 20 cm de espessura? No Brasil, licita-se assim e paga-se por isso, mas os engenheiros comemoram quando se consegue uma cobertura de cinco cm...
Sem falar (e já dizendo) que a produção nacional viaja de caminhão, que no Brasil a malha ferroviária não funciona como transporte de carga e de pessoas porque temos nada menos que cinco bitolas (distância entre trilhos) diferentes, fruto das negociatas que implementaram as ferrovias lá atrás, no (distante?) Brasil Império.
Sem falar (e já dizendo) que os caminhões transportam duas, três, quatro vezes o peso permitido, forçando assim a camada asfáltica, porque menos de 10% das balanças de pesagem estão aferidas ou sequer funcionam. Sem falar que o lobby das indústrias automobilísticas, de combustíveis e demais membros dos cartéis mantém os investimentos em ferrovias à distância. Sempre admirei os industriais: se ferrovias não fossem eficientes, as mineradoras e siderúrgicas não levariam sua carga de trem! Elas têm inclusive um sistema de varredura para os 0,01% do minério derramado, o que a cada 1000 varreduras, enche mais um vagão. Felizes empresas de minério, que têm um meio de transporte praticamente exclusivo!
Sem falar (e já...) nos estudos constantes sobre trânsito em grandes cidades... E chegamos a Belo Horizonte... vocês sabiam que o BRT é solução antiga, adotada em Curitiba há mais de 30 anos? Que todo o problema de deslocamento passa pelo conceito de cidade, que deveria, em tese, ter microrregiões (bairros) auto-suficientes, evitando longos deslocamentos obrigatórios, assim restringindo o trânsito ao âmbito local e conseqüentemente reduzindo o número de veículos em crossovers? 
Palavras ditas e escritas não faltaram. Rodízio de veículos. Alargamento de vias. Pedágio e fiscalização. Incremento do Metrô. Melhoria do transporte coletivo. Estacionamento subterrâneo. Ouvido não tem filtro e papel aceita tudo.   
Novidades? Teremos ônibus biarticulados. Vias exclusivas, plataformas de embarque e desembarque modernas. Sistema integrado ao metrô. Fim do esquema bairro a bairro. Três linhas funcionando na estréia... 
O prefeito de Londres, Boris Johnson, declarou 2014 como o “Ano do Ônibus.” O objetivo dele é homenagear o passado e celebrar a importância do veículo no presente e para o futuro na mobilidade dos ingleses. Aqueles gigantes vermelhos de dois andares são símbolos históricos de Londres ao lado das cabines telefônicas e dos táxis pretos.  Os ícones maiores foram os “Routemasters”, que desde a década de 1950 marcam a paisagem londrina. Como tudo na vida, tiveram de ser modernizados: ganharam novos equipamentos de segurança, não permitem mais o embarque e desembarque pela traseira e tiveram o visual renovado, (sem deixar de ser vintage).  São pontuais, limpos, e circulam em ruas centenárias. Não precisaram ser biarticulados e mesmo assim carregam o dobro de pessoas, obviamente. Fazem parte não só da cultura, mas principalmente da vida cotidiana da cidade. São usados por milhares de pessoas que preferem deixar seus carros em casa. Os ônibus em Londres são considerados essenciais para a mobilidade da metrópole e conectados ao sistema metroferroviário reconhecido mundialmente.
Salve Belo Horizonte. Aqui, 2014 também pode ficar conhecido como o ano do ônibus. E já vai tarde...