Não vim comentar
para defender jornalistas, só quero dar minha contribuição de 20 anos de
profissão cobrindo, entre tantos outros, acidentes, caos no trânsito e as ditas
políticas públicas nesse sentido: Os veículos (de mídia) estão cada vez mais
segmentados, o que resulta em visões parciais da já pretensa realidade dos
fatos. Há os que simplesmente citam para não deixar de noticiar, há os que
garantem audiência graças à desgraça alheia, mas também há os que tentam propor
soluções, fazer as devidas cobranças, levantar as estatísticas, mas
infelizmente, grosso modo, esses só conseguem traço na audiência. Falo disso
porque trabalhei num desses veículos por quase uma década. Outra coisa:
reportagens que vão a fundo nesta questão, só são feitas para ganhar prêmio,
geralmente se elegendo uma rodovia como palco de mortes ou uma cidade como
personagem de um sistema de transporte obsoleto e esgotado. Vocês sabiam que na
Europa e Estados Unidos a camada asfáltica das highways tem, por padrão, 20 cm
de espessura? No Brasil, licita-se assim e paga-se por isso, mas os engenheiros
comemoram quando se consegue uma cobertura de cinco cm...
Sem falar (e já
dizendo) que a produção nacional viaja de caminhão, que no Brasil a malha
ferroviária não funciona como transporte de carga e de pessoas porque temos
nada menos que cinco bitolas (distância entre trilhos) diferentes, fruto das
negociatas que implementaram as ferrovias lá atrás, no (distante?) Brasil
Império.
Sem falar (e já
dizendo) que os caminhões transportam duas, três, quatro vezes o peso
permitido, forçando assim a camada asfáltica, porque menos de 10% das balanças
de pesagem estão aferidas ou sequer funcionam. Sem falar que o lobby das
indústrias automobilísticas, de combustíveis e demais membros dos cartéis mantém
os investimentos em ferrovias à distância. Sempre admirei os industriais: se
ferrovias não fossem eficientes, as mineradoras e siderúrgicas não levariam sua
carga de trem! Elas têm inclusive um sistema de varredura para os 0,01% do
minério derramado, o que a cada 1000 varreduras, enche mais um vagão. Felizes
empresas de minério, que têm um meio de transporte praticamente exclusivo!
Sem falar (e já...)
nos estudos constantes sobre trânsito em grandes cidades... E chegamos a Belo
Horizonte... vocês sabiam que o BRT é solução antiga, adotada em Curitiba há
mais de 30 anos? Que todo o problema de deslocamento passa pelo conceito de
cidade, que deveria, em tese, ter microrregiões (bairros) auto-suficientes,
evitando longos deslocamentos obrigatórios, assim restringindo o trânsito ao
âmbito local e conseqüentemente reduzindo o número de veículos em
crossovers?
Palavras ditas e
escritas não faltaram. Rodízio de veículos. Alargamento de vias. Pedágio e
fiscalização. Incremento
do Metrô. Melhoria do transporte coletivo. Estacionamento subterrâneo. Ouvido
não tem filtro e papel aceita tudo.
Novidades? Teremos
ônibus biarticulados. Vias exclusivas, plataformas de embarque e desembarque
modernas. Sistema integrado ao metrô. Fim do esquema bairro a bairro. Três
linhas funcionando na estréia...
O prefeito de Londres,
Boris Johnson, declarou 2014 como o “Ano do Ônibus.” O objetivo dele é homenagear o passado e
celebrar a importância do veículo no presente e para o futuro na mobilidade dos
ingleses. Aqueles gigantes vermelhos de dois andares são símbolos históricos de
Londres ao lado das cabines telefônicas e dos táxis pretos. Os ícones
maiores foram os “Routemasters”, que desde a década de 1950 marcam a paisagem
londrina. Como tudo na vida, tiveram de ser modernizados: ganharam novos
equipamentos de segurança, não permitem mais o embarque e desembarque pela
traseira e tiveram o visual renovado, (sem deixar de ser vintage). São
pontuais, limpos, e circulam em ruas centenárias. Não precisaram ser
biarticulados e mesmo assim carregam o dobro de pessoas, obviamente. Fazem
parte não só da cultura, mas principalmente da vida cotidiana da cidade. São
usados por milhares de pessoas que preferem deixar seus carros em casa. Os
ônibus em Londres são considerados essenciais para a mobilidade da metrópole e
conectados ao sistema metroferroviário reconhecido mundialmente.
Salve Belo Horizonte.
Aqui, 2014 também pode ficar conhecido como o ano do ônibus. E já vai tarde...